sábado, 31 de dezembro de 2011

Livros de 2011 I: História Política do Diabo, O Jogador e Fausto

Quando comecei este blog, comprometi-me a ir publicando opiniões sobre livros que ia lendo. Infelizmente, não cumpri esta minha promessa, sendo que o último livro sobre o qual escrevi foi 'A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos' do Karl Popper, já em Fevereiro. Por isso, proponho-me a passar pelos livros que fui lendo, em posts diferentes, para não serem posts demasiado grandes. Alguns são clássicos, outros foram surpresas agradáveis, outros são pouco conhecidos mas sê-lo-hão injustamente. Enfim, há livros para todos os gostos.


Daniel Defoe - História Política do Diabo (Political History of the Devil)

Recebi este livro surpreendente como prenda de anos. A estimada pessoa que mo deu olhou para a capa (diga-se de passagem, bem interessante) do livro e pensou logo que seria a minha cara - não se enganou.  Este 'ensaio', escrito por Daniel Defoe (sim, o do Robinson Crusoe) em 1726, tenta descrever a história do Diabo, principalmente de acordo com a Bíblia, antes e depois do nascimento de Cristo. Confesso que o início, apesar de interessante, era um resumo do Antigo Testamento e uma crítica a John Milton, contemporâneo de Crusoe, e à sua visão do Diabo expressa no Paradise Lost. A parte mais engraçada, será, certamente, quando Crusoe começa a descrever a influência que o Diabo teve na política desde o nascimento de Cristo. Como bom protestante, Crusoe afirma que o Diabo 'se senta no trono de S. Pedro em Roma' estendendo os seus tentáculos maléficos Europa fora.

O interessante deste livro é, primeiramente, o estilo mordaz e sarcástico de Crusoe, escrevendo com aquele subtil humor inglês. Claro que Crusoe acredita piamente que o Diabo existe e que teve efectivamente uma influência na política mundial, sendo responsável por vários males, desde as Cruzadas até aos sacrifícios rituais ameríndios. Interessante também é desmistificarmos um pouco a ideia pré-concebida que temos de Diabo - a personagem do Diabo não é o 'bad guy', completamente antagónico à Humanidade. É apenas um anjo renegado que se recusou a obedecer a Deus quando se criou o Homem. E assim, por amar tanto Deus (esta parte da história do Diabo é mais enfatizada no Islão), Satanás, um dos seus anjos, parte numa missão de vingança, consumido por inveja e raiva, e testa o Homem. O que se retira desta história é que o Diabo é mais um 'testador' do que um adversário, tendo-se já infiltrado, segundo Crusoe, na Igreja Católica e nas cortes dos reis absolutistas, tentando os homens todos os dias com aquilo que melhor tem para oferecer - poder (até o próprio Cristo foi tentado). Gostei muito e recomendo.

(BÓNUS: Se lerem este livro, poderão encontrar, nos primeiros capítulos, uma lista de 20 e tal nomes possíveis para o Diabo, desde Satanás, Lúcifer, Belzebu, Filho da Manhã, etc.)



Fyodor Dostoievsky - O Jogador (Игрок)

 Este pequeno livro, escrito em 1867, tem uma notoriedade desproporcional ao seu tamanho. Em pouco mais de 150 páginas, Dostoevsky, naquele estilo absorvente que só ele tem, faz-nos mergulhar na vida frenética de Alexei Ivanovich, um jovem russo instalado numa fictícia cidade alemã (Roletenburgo) com uma comitiva que acompanhava um General russo aposentado que precisava de pagar dívidas a um tal Monsieur Des Grieux, fazendo-o com o jogo. Inicialmente, Alexei, a personagem principal, não entra nas salas do jogo. Mas, perdidamente apaixonado por Polina, uma mulher que, apesar de fria e de fazer gato-sapato de Alexei, nutre por ele simpatia, jura-lhe amor e servidão. Usando-se dessa faculdade, Polina, por um capricho, pede a Alexei para ir apostar na roleta. E, a partir daí, Alexei, agora transformado n'O Jogador, conhece o vício absolutamente intoxicante da roleta. O resto terão que ler...


Este livro pareceu-me tão autêntico na altura que pensei que reflectisse alguma situação da vida do próprio autor. E vim a descobrir depois que ele escreveu o livro como forma de ganhar algum dinheiro para pagar imensas dívidas de jogo, contraídas na roleta. Escrito na primeira-pessoa, ao lermos o livro, o autor consegue-nos transmitir a sua própria angústia relativamente ao jogo. De facto, Dostoievsky é um mestre da prosa. Já o Crime e Castigo foi, para mim, absolutamente viciante, e o Jogador igualmente. Enfim, ficou vontade de ler a magnum opus de Dostoievsky, os Irmãos Karamazov, pois ele é um autor que explora a mente humana como nenhum outro o faz, e sempre da perspectiva do homem comum, confuso na era atribulada que era o fim do século XIX e na estranha cultura russa.



J.W. Goethe - Fausto (Faust)


Este monumental clássico da literatura ocidental é uma leitura obrigatória para qualquer um. Aqui, Heinrich Faust, um professor que procura conhecimento transcendental, é seduzido por Mefistófeles, que lhe aparece no escritório. Por felicidade e sucesso em tudo o que faça, Fausto concorda em servir o Diabo no Inferno após a sua própria morte. Assim, na primeira parte da obra, Fausto e Mefistófeles passeiam pelas intermediações da cidade onde Fausto vive, onde vários episódios que andam à volta de Margarida, o amor de Fausto, tomam lugar. Contudo, este pacto com o Diabo acaba por nunca satisfazer Fausto, porque cada desejo concedido acaba por ter repercurssões fora do controlo da personagem, e ele fica eternamente insatisfeito durante a 1ª parte. Nas 2ª parte, sucedem-se vários episódios fora da cidade de Fausto, incluíndo um na corte do Sacro Império, outro com personagens das tragédias gregas, e outro no meio de uma guerra entre o Imperador e o Contra-Imperador. Contudo, no fim, Mefistófeles tenta reclamar a alma de Fausto, mas não o consegue devido à fúria do último pelo demónio ter desobedecido às suas ordens e assassinado um casal camponês. Nesse momento, Fausto acaba por ser salvo e o Diabo pede a aposta que fez com Deus, de que conseguia desviar Fausto do caminho da rectidão.


O livro não é uma leitura fácil, com uma linguagem típica dos poemas épicos e uma estrutura de uma peça de teatro, mas é sem dúvida uma história extremamente fascinante, com fonte nas várias lendas de um tal de Dr. Fausto que circulavam na Europa desde a Idade Média. Mais uma vez, como todo os livros que versem sobre qualquer tema 'diabólico', o tema central é a insatisfação de ter poder, i.e., mesmo tendo-o, a insatisfação de nunca se conseguir chegar ao controlo absoluto. A frustração de Fausto ao conseguir conquistar Margarida, mas ter que matar o seu irmão para que ela não saiba do pacto com o Diabo, e ao não ir preso (iludindo a polícia) e ir a própria Margarida, ilustra bem este tema, central nesta obra, especialmente na primeira parte. A segunda parte versa mais sobre temas políticos e filosóficos da época, mas é igualmente interessante. 


Amanhã será a vez dos Detectives Selvagens (Roberto Bolaño), Anarquia, Estado e Utopia (Robert Nozick) e O Primo Basílio (Eça de Queirós), e talvez, se houver tempo Por Quem os Sinos Dobram (Hemingway), Os Buddenbrooks (Thomas Mann), Os Verscículos Satânicos (Salman Rushdie) e O Materalismo Dialéctico e o Materialismo Histórico (José Estaline).

1 comentário:

  1. lololololololololol

    Cada vez que falas em "Crusoe" em vez de "Dafoe" parto-me a rir.

    Já agora, vai ver o Carnage do Polanski. Vais gostar.

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