sexta-feira, 10 de junho de 2011

Encruzilhada


Começo por pedir desculpa pelo meu título muito pouco original. Muitos textos escritos nos últimos começam com títulos semelhantes ao meu – chegou a hora da verdade, a hora decisiva, agora ou nunca, etc. E, em bom rigor, isso não é de estranhar – o momento que atravessamos é crítico, mas fascinante. Aliás, todas as crises são fascinantes – há qualquer coisa nos momentos de mudança social que, naturalmente, cativa estudiosos, curiosos e oportunistas. 

Não posso deixar de frisar que, pela primeira vez desde o 25 de Abril, Portugal tem um Presidente, um Governo e uma Maioria de direita (não é bem o sonho de Sá Carneiro, pois para isso era preciso que fosse uma maioria do PSD). Para mim, é um evento que não pode deixar de ser sublinhado – talvez um marco num processo social que já devia ter acontecido há muito tempo em Portugal: a destigmatização (não sei se a palavra existe, sou sincero) da direita. Quando alguém diz em Portugal que é de direita, muitos pensam logo nessa pessoa como um Salazarista, encostando muitos ‘direitistas’ ou a uma direita ultra-conservadora que já não existe, ou a uma direita ultra-liberal que nunca existiu, em boa verdade, em Portugal.
Se calhar, pelo que escrevi, podem já tirar esta ilação – este cabrão votou no PSD. É verdade. Não me arrependo e, mais à frente no texto, irei defender a minha escolha.

Mas tenho de sublinhar a situação excepcionalmente decisiva em que Portugal se encontra, que toda a gente conhece – resultado de anos e anos a viver acima das possibilidades (passou-se do 8 do Estado Novo para o 80 de hoje em dia). A culpa da situação em que estamos, como qualquer pessoa inteligente há de perceber, não é exclusiva de José Sócrates, é o resultado de cerca de 35 anos a viver com dinheiro que não era nosso. Como uma pessoa que pede empréstimos para pagar o plasma, o mercedes e a boa casa, mas que, no fundo, nunca teria dinheiro para ter isso tudo. O problema foi uma inconsciência geral do que se passava – os resultados dos biliões gastos nestes últimos anos, com PPP’s desastrosas, com criações de milhares de organismos estatais inúteis (há uma rua ali ao pé do Marquês de Pombal onde eu costumo passar, e há um edifício sede da ‘Comissão Nacional Para a Igualdade de Género’, e eu pergunto-me sempre – quanto dinheiro foi aqui gasto com o arrendamento do edifício, os salários dos boys, os carros?), corrupção, enfim, os problemas conhecidos de toda a gente (sei que pode parecer chato o facto de não estar a dar novidade nenhuma). E quando José Sócrates chegou ao poder em 2005, ninguém tinha noção das consequências disso tudo, pois um défice de 3% já era terrível, e mesmo apesar de alguns alertas já feitos. E então, Sócrates com os seus ambiciosos (positiva ou negativamente) programas de inovação tecnológica, obras públicas, ‘novas oportunidades’, etc., deve-se ter apercebido a um certo ponto. Mas nada fez, continuou, quase até ao fim, a dizer que avançava com o TGV e a 3ª Travessia do Tejo, a mentir sobre o estado das contas públicas, a dizer que estava tudo bem quando não estava. E assim prolongou uma situação que ele poderia ter resolvido se houvesse vontade política. Sim, Sócrates podia ter saído disto como o Primeiro-Ministro que se apercebeu do decalabro que se iria passar e, a tempo e com sinceridade, conseguiu resolvê-lo. Prolongou tanto que caiu e que teve de vir o FMI.

Agora, Passos Coelho e Paulo Portas, têm uma tarefa muito difícil pela frente. Votei no PSD por uma certa (mas não total) afinidade ideológica e também pela aversão à atitude de Sócrates que descrevi acima (e por diferenças ideológicas, naturalmente). Poder-me-ão dizer: ‘ai, pois, o Passos só ganhou por descredibilidade do Sócrates!’. Parcialmente é verdade – mas digam-me eleições onde políticos em exercício se candidatam e perdem, em parte, pelo que fizeram... A democracia é feita mesmo disso, de uma aprovação ou desaprovação de quem governa, isso não há dúvida. 

Na situação actual, eu acho que o factor determinante para saírmos desta crise não são as ideologias ou os partidos. Creio que, agora, as medidas serem de esquerda ou de direita é um factor cada vez mais irrelevante. Não será agora posta à prova a nossa força de convicções ou as nossas ideias, mas a nossa competência. Cada vez mais acho que já deixou de ser uma questão de ideologia, mas antes é uma questão de competência, pois até os problemas que descrevi acima não são fruto de convicções ideológicas ou partidárias (aconteceram tanto em Governos PSD como PS), mas fruto de mera incompetência e de falta de visão e sentido de responsabilidade política. Basta isso ser resolvido, e, seja quem estiver no Governo, estaremos no bom caminho.

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