sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Livros II: A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos

Ficha Técnica
Título: The Open Society and Its Enemies
Autor: Karl Popper
Língua: Inglês
Editora: Routledge
Ano: 1945, Londres

Acabei os dois volumes de uma das maiores, senão a maior, obra de Karl Popper: a Sociedade Aberta e os Seus Inimigos. O livro divide-se em dois volumes, o primeiro sobre Platão e o segundo sobre Hegel e Marx, e é uma crítica feroz do filósofo austríaco aos filósofos cujas visões ele vê como a base filosófica de regimes totalitários e cujas ideias estão em conflito aberto com o que ele chama “a sociedade aberta”, que corresponde, mais ou menos, à democracia moderna. 

O que é isso da Sociedade Aberta, de que Popper fala? É uma sociedade onde o humanitarismo, a liberdade individual, a democracia e a livre-expressão estão asseguradas. Popper opõe isso a sociedades fechadas, que vão desde sociedades tribais até aos regimes totalitários, que têm em comum a procura e imposição da verdade derradeira, a existência de mitos e dogmas, bem como de rituais inquestionáveis. No entanto, Popper não procura um lugar utópico de uma sociedade totalmente aberta, na sua concepção, entendendo que há inúmeras limitações, mas concluindo que a democracia, quando conjugada com uma relativa liberdade económica, reúne maiores aptidões para essa abertura.



E os seus inimigos?

Popper começa a obra com uma feroz crítica a Platão, a meu ver excessiva, mas propositada, indo encontrar as raízes do seu pensamento a Heráclito. Ambos achavam ter existido um estado de existência ideal no início dos tempos, em que cada um sabia o seu lugar e ainda não tinha havido qualquer tipo de degeneração. Esse estado ideal corresponderia à existência tribal. No entanto, a História mostrava um crescente e irreversível declínio para a degeneração, que Platão via especialmente em Atenas. Popper mostra como Heraclito e Platão foram os pioneiros do pensamento “historicista”, em que a História é composta por mecanismos que levam a resultados previsíveis. Devido a essa degeneração, Popper conclui que o projecto político de Platão, explicado n’A República, mas também em outras obras, consiste num “parem a mudança!”, e num desejo de voltar a esse estado inicial ideal, a existência tribal, que ele via concretizada, na sua altura, em Esparta – uma sociedade composta por três ‘castas’ rígidas, cujo mote é “cada um no seu lugar”. Mas todos sabemos a configuração social desta cidade imaginada por Platão, em que a classe dominante vive numa espécie de proto-comunismo (não havendo propriedade privada, não acumulando riqueza), com o simples propósito de não fomentar divisões no seu seio. Basicamente,  Popper conclui que essa visão política de Platão levaria a um Estado autoritário (quase totalitário, mas o termo é anacrónico), com uma rígida estrutura, baseado em ideais colectivistas e de eugenia racial. No entanto, o autor valoriza o papel de Platão como sociólogo e como observador de certas realidades, apesar da crítica feroz ao seu projecto político.
Popper acaba o primeiro volume a elogiar, apesar dos seus defeitos, Atenas como o mais próximo que a Antiguidade esteve da Sociedade Aberta, frisando a ligação entre o comércio (especialmente marítimo) e a criação e prosperidade de instituições livres. 

No segundo volume, Popper fala-nos de Hegel e Marx.

Quanto a Hegel, Popper denuncia-o (excessivamente, na opinião de alguns críticos), parafraseando Schoppenauer, como um “charlatão e um aldrabão”, falando da natureza estupidifcadora da sua escrita pretensiosamente complexa e do método dialéctico, visto como forma de suportar filosoficamente essa escrita. Mostra que Hegel esteve, latentemente, na base de todo o pensamento germânico autoritário durante os séculos XIX e XX, ligando o facto de Hegel ser o “filósofo oficial” da corte Prussiana, e de ela o usar como forma de legitimar filosoficamente o seu autoritarismo. Hegel, aplicando o método dialéctico à História (tese-antítese-síntese), inverteu o raciocínio platónico – a História continua a mover-se por mecanismos permanentes, mas não está num declínio inevitável, mas numa subida, sendo o passo seguinte da sua evolução natural a afirmação da Monarquia Germânica, no modelo Prussiano, como forma mais elevada de Estado possível. Com uma visão da política baseada na ideia de “a história será o juíz”, Hegel descarta os indivíduos como actores e o papel da moralidade, pois ela é tão relativa que só se podem julgar os Estados e os ‘Grandes Homens‘ consoante o seu sucesso ou não. De resto, toda a filosofia transpersonalista já bastante conhecida de Hegel é já conhecida, merecendo toda a crítica de Popper pela sua veneração do Estado e pela sua concepção enganadora, devido à própria escrita de Hegel.

De seguida, passa para Marx. Tal como fez com Platão, Popper elogia em grande parte a aproximação sociológica de Marx, mas critica o seu modelo político. Como sabemos, Marx pega na explicação dialéctica da História de Hegel e adiciona-lhe o seu contributo – o materialismo (Popper não critica totalmente a visão materialista da sociologia, mas crê ser uma generalização excessiva, podendo conjugar vários factores explicativos da sociologia). Posteriormente, faz uma óptima crítica à profecia histórica proposta por Marx e baseada no materialismo dialéctico (capitalismo eventualmente auto-destrói-se devido à pressão enorme exercida sobre o proletariado – segue-se a revolução social – o proletariado chega ao poder, instaurando um regime naturalmente democrático e eventualmente levando à sociedade sem classes). Popper aponta o facto de Marx ter falhado redondamente em inúmeras previsões, tais como o crescimento do proletariado até a um ponto insustentável, a impossibilidade do capitalismo se reformar , acusando-o também de fazer previsões irrealistas, como o facto do proletariado manter a sua unidade e programa uma vez chegado ao poder. Mas coisa curiosa que Popper demonstra é que, n’O Capital, Marx não advoga a engenharia social que tantos dos seus seguidores puseram em prática – a vinda do Comunismo seria inevitável, e não seria trazida através da reforma política, pois o que era preciso era uma mudança dos meios de produção (a chamada infra-estrutura), mudança essa que mudaria a chamada super-estrutura jurídica e política – vemos já aqui que Marx acaba por desprezar a política e o Direito e as próprias relações sociais como reflexos dos modos de produção (exemplo: invenção da máquina a vapor permitiu a transferência do Feudalismo para o Capitalismo).

Logo, é curioso a forma totalmente anti-Marxista que muitos Marxistas conduziram a sua política, quase como se quisessem, aos olhos de Marx, apressar o processo. Popper aponta também que, na altura da publicação da obra (1945), a grande parte dos pontos propostos no programa original de Marx haviam sido conseguidos por reformas graduais e sucessivas (exemplos: educação gratuita, nacionalização de meios de comunicação e transporte, etc.), menos, claro está, “abolição da propriedade privada”. Marx, como é sabido, errou na assunção de que o capitalismo era irreformável, o que, olhando para trás, não corresponde à verdade. No entanto, Popper defende Marx como um homem indignado com as condições de trabalho da Revolução Industrial, e que pretendia ir mais longe que os Socialistas Utópicos seus contemporâneos – ser Marxista não é idealizar uma sociedade ideal, é acreditar que essa tal sociedade virá pois os mecanismos da história assim o demonstram.

No fundo, Popper critica a forma como filosofias, desde já filosficamente objectáveis, foram postas em prática – a crença num destino inevitável e inexorável afasta qualquer crítica, qualquer interferência – qualquer crítico ou opositor apenas não quer que a História ande o seu caminho natural – seja ele o triunfo do Prussianismo ou do Comunismo. Popper expõe a realidade mais crua – não nos podemos desresponsabilizar das nossas acções atirando as culpas para a História e os seus mecanismos, para a nossa consciência de classe (para Marx) ou Volksgeist (para Hegel). Ao fazermos isso, estamos a descartar a responsabilidade individual, estamos a ir contra o que o próprio Marx, incoerentemente, propõe – sermos donos do nosso próprio destino. Nós somos donos do nosso próprio destino, ele já não está desenhado. E por sermos por ele responsáveis, não nos podemos desvincular e atirar as culpas para mecanismos metafísicos espatafúrdios – uma Sociedade Aberta só o será a partir do momento em que raciocínios desses forem descartados, sendo assim a crítica aceite e os pilares de uma sociedade livre bem cimentados. Naturalmente que, devido à extensão do livro, não reproduzi aqui todas as críticas e observações que Popper faz em relação a cada um dos três filósofos.

É uma defesa apaixonada da democracia e do liberalismo, e certamente um essencial para quem procure bases filosóficas mais profundas sobre a natureza da democracia, seja-se de esquerda, de direita, social-democrata, liberal ou conservador. Claro que é uma leitura que não dispensa a leitura dos textos referidos (durante a leitura deste livro voltei a ler A República, revi o Manifesto Comunista e consultei O Capital, só não vi, infelizmente, nenhuma obra do Hegel). Recomendo.

1 comentário:

  1. Estava a ver que tinhas morrido...
    Até que enfim, vou poder voltar a divertir-me. Continua a postar.

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