sábado, 31 de dezembro de 2011

Livros de 2011 I: História Política do Diabo, O Jogador e Fausto

Quando comecei este blog, comprometi-me a ir publicando opiniões sobre livros que ia lendo. Infelizmente, não cumpri esta minha promessa, sendo que o último livro sobre o qual escrevi foi 'A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos' do Karl Popper, já em Fevereiro. Por isso, proponho-me a passar pelos livros que fui lendo, em posts diferentes, para não serem posts demasiado grandes. Alguns são clássicos, outros foram surpresas agradáveis, outros são pouco conhecidos mas sê-lo-hão injustamente. Enfim, há livros para todos os gostos.


Daniel Defoe - História Política do Diabo (Political History of the Devil)

Recebi este livro surpreendente como prenda de anos. A estimada pessoa que mo deu olhou para a capa (diga-se de passagem, bem interessante) do livro e pensou logo que seria a minha cara - não se enganou.  Este 'ensaio', escrito por Daniel Defoe (sim, o do Robinson Crusoe) em 1726, tenta descrever a história do Diabo, principalmente de acordo com a Bíblia, antes e depois do nascimento de Cristo. Confesso que o início, apesar de interessante, era um resumo do Antigo Testamento e uma crítica a John Milton, contemporâneo de Crusoe, e à sua visão do Diabo expressa no Paradise Lost. A parte mais engraçada, será, certamente, quando Crusoe começa a descrever a influência que o Diabo teve na política desde o nascimento de Cristo. Como bom protestante, Crusoe afirma que o Diabo 'se senta no trono de S. Pedro em Roma' estendendo os seus tentáculos maléficos Europa fora.

O interessante deste livro é, primeiramente, o estilo mordaz e sarcástico de Crusoe, escrevendo com aquele subtil humor inglês. Claro que Crusoe acredita piamente que o Diabo existe e que teve efectivamente uma influência na política mundial, sendo responsável por vários males, desde as Cruzadas até aos sacrifícios rituais ameríndios. Interessante também é desmistificarmos um pouco a ideia pré-concebida que temos de Diabo - a personagem do Diabo não é o 'bad guy', completamente antagónico à Humanidade. É apenas um anjo renegado que se recusou a obedecer a Deus quando se criou o Homem. E assim, por amar tanto Deus (esta parte da história do Diabo é mais enfatizada no Islão), Satanás, um dos seus anjos, parte numa missão de vingança, consumido por inveja e raiva, e testa o Homem. O que se retira desta história é que o Diabo é mais um 'testador' do que um adversário, tendo-se já infiltrado, segundo Crusoe, na Igreja Católica e nas cortes dos reis absolutistas, tentando os homens todos os dias com aquilo que melhor tem para oferecer - poder (até o próprio Cristo foi tentado). Gostei muito e recomendo.

(BÓNUS: Se lerem este livro, poderão encontrar, nos primeiros capítulos, uma lista de 20 e tal nomes possíveis para o Diabo, desde Satanás, Lúcifer, Belzebu, Filho da Manhã, etc.)



Fyodor Dostoievsky - O Jogador (Игрок)

 Este pequeno livro, escrito em 1867, tem uma notoriedade desproporcional ao seu tamanho. Em pouco mais de 150 páginas, Dostoevsky, naquele estilo absorvente que só ele tem, faz-nos mergulhar na vida frenética de Alexei Ivanovich, um jovem russo instalado numa fictícia cidade alemã (Roletenburgo) com uma comitiva que acompanhava um General russo aposentado que precisava de pagar dívidas a um tal Monsieur Des Grieux, fazendo-o com o jogo. Inicialmente, Alexei, a personagem principal, não entra nas salas do jogo. Mas, perdidamente apaixonado por Polina, uma mulher que, apesar de fria e de fazer gato-sapato de Alexei, nutre por ele simpatia, jura-lhe amor e servidão. Usando-se dessa faculdade, Polina, por um capricho, pede a Alexei para ir apostar na roleta. E, a partir daí, Alexei, agora transformado n'O Jogador, conhece o vício absolutamente intoxicante da roleta. O resto terão que ler...


Este livro pareceu-me tão autêntico na altura que pensei que reflectisse alguma situação da vida do próprio autor. E vim a descobrir depois que ele escreveu o livro como forma de ganhar algum dinheiro para pagar imensas dívidas de jogo, contraídas na roleta. Escrito na primeira-pessoa, ao lermos o livro, o autor consegue-nos transmitir a sua própria angústia relativamente ao jogo. De facto, Dostoievsky é um mestre da prosa. Já o Crime e Castigo foi, para mim, absolutamente viciante, e o Jogador igualmente. Enfim, ficou vontade de ler a magnum opus de Dostoievsky, os Irmãos Karamazov, pois ele é um autor que explora a mente humana como nenhum outro o faz, e sempre da perspectiva do homem comum, confuso na era atribulada que era o fim do século XIX e na estranha cultura russa.



J.W. Goethe - Fausto (Faust)


Este monumental clássico da literatura ocidental é uma leitura obrigatória para qualquer um. Aqui, Heinrich Faust, um professor que procura conhecimento transcendental, é seduzido por Mefistófeles, que lhe aparece no escritório. Por felicidade e sucesso em tudo o que faça, Fausto concorda em servir o Diabo no Inferno após a sua própria morte. Assim, na primeira parte da obra, Fausto e Mefistófeles passeiam pelas intermediações da cidade onde Fausto vive, onde vários episódios que andam à volta de Margarida, o amor de Fausto, tomam lugar. Contudo, este pacto com o Diabo acaba por nunca satisfazer Fausto, porque cada desejo concedido acaba por ter repercurssões fora do controlo da personagem, e ele fica eternamente insatisfeito durante a 1ª parte. Nas 2ª parte, sucedem-se vários episódios fora da cidade de Fausto, incluíndo um na corte do Sacro Império, outro com personagens das tragédias gregas, e outro no meio de uma guerra entre o Imperador e o Contra-Imperador. Contudo, no fim, Mefistófeles tenta reclamar a alma de Fausto, mas não o consegue devido à fúria do último pelo demónio ter desobedecido às suas ordens e assassinado um casal camponês. Nesse momento, Fausto acaba por ser salvo e o Diabo pede a aposta que fez com Deus, de que conseguia desviar Fausto do caminho da rectidão.


O livro não é uma leitura fácil, com uma linguagem típica dos poemas épicos e uma estrutura de uma peça de teatro, mas é sem dúvida uma história extremamente fascinante, com fonte nas várias lendas de um tal de Dr. Fausto que circulavam na Europa desde a Idade Média. Mais uma vez, como todo os livros que versem sobre qualquer tema 'diabólico', o tema central é a insatisfação de ter poder, i.e., mesmo tendo-o, a insatisfação de nunca se conseguir chegar ao controlo absoluto. A frustração de Fausto ao conseguir conquistar Margarida, mas ter que matar o seu irmão para que ela não saiba do pacto com o Diabo, e ao não ir preso (iludindo a polícia) e ir a própria Margarida, ilustra bem este tema, central nesta obra, especialmente na primeira parte. A segunda parte versa mais sobre temas políticos e filosóficos da época, mas é igualmente interessante. 


Amanhã será a vez dos Detectives Selvagens (Roberto Bolaño), Anarquia, Estado e Utopia (Robert Nozick) e O Primo Basílio (Eça de Queirós), e talvez, se houver tempo Por Quem os Sinos Dobram (Hemingway), Os Buddenbrooks (Thomas Mann), Os Verscículos Satânicos (Salman Rushdie) e O Materalismo Dialéctico e o Materialismo Histórico (José Estaline).

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Encruzilhada


Começo por pedir desculpa pelo meu título muito pouco original. Muitos textos escritos nos últimos começam com títulos semelhantes ao meu – chegou a hora da verdade, a hora decisiva, agora ou nunca, etc. E, em bom rigor, isso não é de estranhar – o momento que atravessamos é crítico, mas fascinante. Aliás, todas as crises são fascinantes – há qualquer coisa nos momentos de mudança social que, naturalmente, cativa estudiosos, curiosos e oportunistas. 

Não posso deixar de frisar que, pela primeira vez desde o 25 de Abril, Portugal tem um Presidente, um Governo e uma Maioria de direita (não é bem o sonho de Sá Carneiro, pois para isso era preciso que fosse uma maioria do PSD). Para mim, é um evento que não pode deixar de ser sublinhado – talvez um marco num processo social que já devia ter acontecido há muito tempo em Portugal: a destigmatização (não sei se a palavra existe, sou sincero) da direita. Quando alguém diz em Portugal que é de direita, muitos pensam logo nessa pessoa como um Salazarista, encostando muitos ‘direitistas’ ou a uma direita ultra-conservadora que já não existe, ou a uma direita ultra-liberal que nunca existiu, em boa verdade, em Portugal.
Se calhar, pelo que escrevi, podem já tirar esta ilação – este cabrão votou no PSD. É verdade. Não me arrependo e, mais à frente no texto, irei defender a minha escolha.

Mas tenho de sublinhar a situação excepcionalmente decisiva em que Portugal se encontra, que toda a gente conhece – resultado de anos e anos a viver acima das possibilidades (passou-se do 8 do Estado Novo para o 80 de hoje em dia). A culpa da situação em que estamos, como qualquer pessoa inteligente há de perceber, não é exclusiva de José Sócrates, é o resultado de cerca de 35 anos a viver com dinheiro que não era nosso. Como uma pessoa que pede empréstimos para pagar o plasma, o mercedes e a boa casa, mas que, no fundo, nunca teria dinheiro para ter isso tudo. O problema foi uma inconsciência geral do que se passava – os resultados dos biliões gastos nestes últimos anos, com PPP’s desastrosas, com criações de milhares de organismos estatais inúteis (há uma rua ali ao pé do Marquês de Pombal onde eu costumo passar, e há um edifício sede da ‘Comissão Nacional Para a Igualdade de Género’, e eu pergunto-me sempre – quanto dinheiro foi aqui gasto com o arrendamento do edifício, os salários dos boys, os carros?), corrupção, enfim, os problemas conhecidos de toda a gente (sei que pode parecer chato o facto de não estar a dar novidade nenhuma). E quando José Sócrates chegou ao poder em 2005, ninguém tinha noção das consequências disso tudo, pois um défice de 3% já era terrível, e mesmo apesar de alguns alertas já feitos. E então, Sócrates com os seus ambiciosos (positiva ou negativamente) programas de inovação tecnológica, obras públicas, ‘novas oportunidades’, etc., deve-se ter apercebido a um certo ponto. Mas nada fez, continuou, quase até ao fim, a dizer que avançava com o TGV e a 3ª Travessia do Tejo, a mentir sobre o estado das contas públicas, a dizer que estava tudo bem quando não estava. E assim prolongou uma situação que ele poderia ter resolvido se houvesse vontade política. Sim, Sócrates podia ter saído disto como o Primeiro-Ministro que se apercebeu do decalabro que se iria passar e, a tempo e com sinceridade, conseguiu resolvê-lo. Prolongou tanto que caiu e que teve de vir o FMI.

Agora, Passos Coelho e Paulo Portas, têm uma tarefa muito difícil pela frente. Votei no PSD por uma certa (mas não total) afinidade ideológica e também pela aversão à atitude de Sócrates que descrevi acima (e por diferenças ideológicas, naturalmente). Poder-me-ão dizer: ‘ai, pois, o Passos só ganhou por descredibilidade do Sócrates!’. Parcialmente é verdade – mas digam-me eleições onde políticos em exercício se candidatam e perdem, em parte, pelo que fizeram... A democracia é feita mesmo disso, de uma aprovação ou desaprovação de quem governa, isso não há dúvida. 

Na situação actual, eu acho que o factor determinante para saírmos desta crise não são as ideologias ou os partidos. Creio que, agora, as medidas serem de esquerda ou de direita é um factor cada vez mais irrelevante. Não será agora posta à prova a nossa força de convicções ou as nossas ideias, mas a nossa competência. Cada vez mais acho que já deixou de ser uma questão de ideologia, mas antes é uma questão de competência, pois até os problemas que descrevi acima não são fruto de convicções ideológicas ou partidárias (aconteceram tanto em Governos PSD como PS), mas fruto de mera incompetência e de falta de visão e sentido de responsabilidade política. Basta isso ser resolvido, e, seja quem estiver no Governo, estaremos no bom caminho.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril Sempre!

Há 37 anos, Portugal mudou completamente. Depois de 40 anos de uma ditadura cinzenta, conservadora e retrógrada, a luz da democracia brilhou em Portugal. Sim, nem tudo foi fácil e, infelizmente, o período que se seguiu, o PREC, foi mais uma página triste na nossa História. Contudo, felizmente houve o 25 de Novembro, e aí, Portugal pôde seguir o caminho da estabilidade democrática.

Não podemos deixar o 25 de Abril transformar-se num mero conjunto de rituais - tranquilizamos a nossa consciência se andarmos com um cravo ou ouvirmos a 'Grândola, Vila Morena' e até a cantarmos baixinho. Mas esta efeméride não se deve reduzir a uma mera efeméride, mas deve servir como um lembrete, e não se tornar noutro 5 de Outubro, hoje infelizmente esvaziado de entusiasmo e de significado...

Deve lembrar-nos de que nunca mais toleraremos quem nos silencie

Deve lembrar-nos de que nunca mais toleraremos quem nos lave o cérebro

Deve lembrar-nos de que, em democracia, não há caminhos inevitáveis, não há doutrinas sagradas

Deve lembrar-nos de que o poder reside em cada um de nós

Deve lembrar-nos de que não somos brinquedos na mão do Estado


Sendo que foi o 25 de Abril que nos deu a democracia, não devemos dar um cariz demasiado ideológico à data, pois ela trouxe-nos o pluralismo. O 25 de Abril não é uma 'revolução de esquerda', é uma revolução de todos os amantes da liberdade, sejam de esquerda ou direita, e, acima de tudo, independentemente de ideologia, dos amantes do pluralismo.

E nunca, nunca secundarizar as principais conquistas de Abril - liberdade, democracia, livre expressão, fim de uma guerra estúpida, auto-determinação dos povos... Não podemos ter a arrogância de que Abril e PREC se confundem, pois eles não se confundem - o 25 de Abril foi feito por pessoas de todo o espectro político, o PREC não...

Que, neste momento difícil, não secundarizemos as verdadeiras conquistas da revolução dos cravos, e que não as troquemos de bom grado, nunca.

25 de Abril sempre, ditadura nunca mais!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Here We Go Again, FDL!


Recomeçou a época. Sim, já havia sinais a acumular-se desde Janeiro, mas agora está a todo o vapor. Abriu-se a mais divertida época festiva na FDL a seguir às orais – as eleições para a AAFDL. 

Os primeiros sinais são ainda na época de exames/orais, quando vemos muitas pessoas com ar atarefado a andar de um lado para o outro, ofegantes e preocupadas. Elas circulam entre bar velho e bar novo, mas concentram-se mais no primeiro. Como até já tinha referido num post anterior, o seu local perdilecto de encontros secretos é o jardim do bar velho, ou por baixo das escadas do bar novo, ou na porta traseira, ou no pátio interior, mas de forma a verem-se. Assim, com certeza movidos por um sentido enorme de transparência, conseguimos ver quando começa.

Este ano, mais uma vez, temos 3 listas! R, E e T. Não farei conclusões percepitadas sobre nenhumas delas, apesar de eu achar muito giro, mas isso é um problema de qualquer lista na FDL, do romanticismo com que eles tratam isto: “Manifesto”, “Academia”, etc. etc. Não é à toa que muitos dos “grandes” políticos do nosso país vêm na nossa mui nobre casa. A R, como qualquer grupo de pessoas que está no poder, quer lá manter-se, mas isso é um facto natural; a E parece ressuscitar o espírito da Lista X, mas com algumas diferenças e com outra liderança; e a T, por seu lado, não é nada mais do que uma tentativa de reanimação da C, mas que, por isso mesmo, é uma forte candidata à eleição, como são as outras.

E por isso, preparem-se meus caríssimos proto-juristas, pois começará a lavagem de roupa suja, porque a merda que qualquer pessoa faz parece significativamente magnificada durante uma eleição; intrigas, facadas nas costas; prevejo que algumas amizades irão acabar também, porque, perante o poder, o quê que interessa um amigo que é um estorvo, right?

E, meus caríssimos colegas do 1º ano, tenham cuidado – como diz um cartaz feito em cima do joelho que afixam em diversos locais da FDL, este é o 1º ano com mais alunos de sempre, por isso, tenham cuidado – a caça ao voto, o cacique anda no ar, cheira-se e vê-se. O Presidente de lista tal a numa mesa redonda do bar velho a conversar com um grupo de caloiros incautos; ex-, presentes e futuros dirigentes associativos a fumarem na rampinha do bar velho junto à biblioteca, pessoas de várias listas a espalhar “Fichas de Lista” por todo o lado, Festas de Lista, possivelmente Fim-de-Semanas de Lista (o da R já foi, chamava-se “Audiências”) e, nos dias da campanha, canetas, folhetos, canetas, canetas e campanhas que, em tempo de crise, gastam milhares de euros – repito, milhares de euros, para ganharem uma associação académica. 
Aposto que há campanhas para eleições em algumas autarquias que saem mais barato.



Enfim, é um tempo de intriga, de inimizade, de novas “amizades”, de facadas, de acontecimentos inesperados, insulto barato, lavagem de roupa suja, do diz que disse – é divertido, é o thriller das eleições AAFDL!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Livros II: A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos

Ficha Técnica
Título: The Open Society and Its Enemies
Autor: Karl Popper
Língua: Inglês
Editora: Routledge
Ano: 1945, Londres

Acabei os dois volumes de uma das maiores, senão a maior, obra de Karl Popper: a Sociedade Aberta e os Seus Inimigos. O livro divide-se em dois volumes, o primeiro sobre Platão e o segundo sobre Hegel e Marx, e é uma crítica feroz do filósofo austríaco aos filósofos cujas visões ele vê como a base filosófica de regimes totalitários e cujas ideias estão em conflito aberto com o que ele chama “a sociedade aberta”, que corresponde, mais ou menos, à democracia moderna. 

O que é isso da Sociedade Aberta, de que Popper fala? É uma sociedade onde o humanitarismo, a liberdade individual, a democracia e a livre-expressão estão asseguradas. Popper opõe isso a sociedades fechadas, que vão desde sociedades tribais até aos regimes totalitários, que têm em comum a procura e imposição da verdade derradeira, a existência de mitos e dogmas, bem como de rituais inquestionáveis. No entanto, Popper não procura um lugar utópico de uma sociedade totalmente aberta, na sua concepção, entendendo que há inúmeras limitações, mas concluindo que a democracia, quando conjugada com uma relativa liberdade económica, reúne maiores aptidões para essa abertura.



E os seus inimigos?

Popper começa a obra com uma feroz crítica a Platão, a meu ver excessiva, mas propositada, indo encontrar as raízes do seu pensamento a Heráclito. Ambos achavam ter existido um estado de existência ideal no início dos tempos, em que cada um sabia o seu lugar e ainda não tinha havido qualquer tipo de degeneração. Esse estado ideal corresponderia à existência tribal. No entanto, a História mostrava um crescente e irreversível declínio para a degeneração, que Platão via especialmente em Atenas. Popper mostra como Heraclito e Platão foram os pioneiros do pensamento “historicista”, em que a História é composta por mecanismos que levam a resultados previsíveis. Devido a essa degeneração, Popper conclui que o projecto político de Platão, explicado n’A República, mas também em outras obras, consiste num “parem a mudança!”, e num desejo de voltar a esse estado inicial ideal, a existência tribal, que ele via concretizada, na sua altura, em Esparta – uma sociedade composta por três ‘castas’ rígidas, cujo mote é “cada um no seu lugar”. Mas todos sabemos a configuração social desta cidade imaginada por Platão, em que a classe dominante vive numa espécie de proto-comunismo (não havendo propriedade privada, não acumulando riqueza), com o simples propósito de não fomentar divisões no seu seio. Basicamente,  Popper conclui que essa visão política de Platão levaria a um Estado autoritário (quase totalitário, mas o termo é anacrónico), com uma rígida estrutura, baseado em ideais colectivistas e de eugenia racial. No entanto, o autor valoriza o papel de Platão como sociólogo e como observador de certas realidades, apesar da crítica feroz ao seu projecto político.
Popper acaba o primeiro volume a elogiar, apesar dos seus defeitos, Atenas como o mais próximo que a Antiguidade esteve da Sociedade Aberta, frisando a ligação entre o comércio (especialmente marítimo) e a criação e prosperidade de instituições livres. 

No segundo volume, Popper fala-nos de Hegel e Marx.

Quanto a Hegel, Popper denuncia-o (excessivamente, na opinião de alguns críticos), parafraseando Schoppenauer, como um “charlatão e um aldrabão”, falando da natureza estupidifcadora da sua escrita pretensiosamente complexa e do método dialéctico, visto como forma de suportar filosoficamente essa escrita. Mostra que Hegel esteve, latentemente, na base de todo o pensamento germânico autoritário durante os séculos XIX e XX, ligando o facto de Hegel ser o “filósofo oficial” da corte Prussiana, e de ela o usar como forma de legitimar filosoficamente o seu autoritarismo. Hegel, aplicando o método dialéctico à História (tese-antítese-síntese), inverteu o raciocínio platónico – a História continua a mover-se por mecanismos permanentes, mas não está num declínio inevitável, mas numa subida, sendo o passo seguinte da sua evolução natural a afirmação da Monarquia Germânica, no modelo Prussiano, como forma mais elevada de Estado possível. Com uma visão da política baseada na ideia de “a história será o juíz”, Hegel descarta os indivíduos como actores e o papel da moralidade, pois ela é tão relativa que só se podem julgar os Estados e os ‘Grandes Homens‘ consoante o seu sucesso ou não. De resto, toda a filosofia transpersonalista já bastante conhecida de Hegel é já conhecida, merecendo toda a crítica de Popper pela sua veneração do Estado e pela sua concepção enganadora, devido à própria escrita de Hegel.

De seguida, passa para Marx. Tal como fez com Platão, Popper elogia em grande parte a aproximação sociológica de Marx, mas critica o seu modelo político. Como sabemos, Marx pega na explicação dialéctica da História de Hegel e adiciona-lhe o seu contributo – o materialismo (Popper não critica totalmente a visão materialista da sociologia, mas crê ser uma generalização excessiva, podendo conjugar vários factores explicativos da sociologia). Posteriormente, faz uma óptima crítica à profecia histórica proposta por Marx e baseada no materialismo dialéctico (capitalismo eventualmente auto-destrói-se devido à pressão enorme exercida sobre o proletariado – segue-se a revolução social – o proletariado chega ao poder, instaurando um regime naturalmente democrático e eventualmente levando à sociedade sem classes). Popper aponta o facto de Marx ter falhado redondamente em inúmeras previsões, tais como o crescimento do proletariado até a um ponto insustentável, a impossibilidade do capitalismo se reformar , acusando-o também de fazer previsões irrealistas, como o facto do proletariado manter a sua unidade e programa uma vez chegado ao poder. Mas coisa curiosa que Popper demonstra é que, n’O Capital, Marx não advoga a engenharia social que tantos dos seus seguidores puseram em prática – a vinda do Comunismo seria inevitável, e não seria trazida através da reforma política, pois o que era preciso era uma mudança dos meios de produção (a chamada infra-estrutura), mudança essa que mudaria a chamada super-estrutura jurídica e política – vemos já aqui que Marx acaba por desprezar a política e o Direito e as próprias relações sociais como reflexos dos modos de produção (exemplo: invenção da máquina a vapor permitiu a transferência do Feudalismo para o Capitalismo).

Logo, é curioso a forma totalmente anti-Marxista que muitos Marxistas conduziram a sua política, quase como se quisessem, aos olhos de Marx, apressar o processo. Popper aponta também que, na altura da publicação da obra (1945), a grande parte dos pontos propostos no programa original de Marx haviam sido conseguidos por reformas graduais e sucessivas (exemplos: educação gratuita, nacionalização de meios de comunicação e transporte, etc.), menos, claro está, “abolição da propriedade privada”. Marx, como é sabido, errou na assunção de que o capitalismo era irreformável, o que, olhando para trás, não corresponde à verdade. No entanto, Popper defende Marx como um homem indignado com as condições de trabalho da Revolução Industrial, e que pretendia ir mais longe que os Socialistas Utópicos seus contemporâneos – ser Marxista não é idealizar uma sociedade ideal, é acreditar que essa tal sociedade virá pois os mecanismos da história assim o demonstram.

No fundo, Popper critica a forma como filosofias, desde já filosficamente objectáveis, foram postas em prática – a crença num destino inevitável e inexorável afasta qualquer crítica, qualquer interferência – qualquer crítico ou opositor apenas não quer que a História ande o seu caminho natural – seja ele o triunfo do Prussianismo ou do Comunismo. Popper expõe a realidade mais crua – não nos podemos desresponsabilizar das nossas acções atirando as culpas para a História e os seus mecanismos, para a nossa consciência de classe (para Marx) ou Volksgeist (para Hegel). Ao fazermos isso, estamos a descartar a responsabilidade individual, estamos a ir contra o que o próprio Marx, incoerentemente, propõe – sermos donos do nosso próprio destino. Nós somos donos do nosso próprio destino, ele já não está desenhado. E por sermos por ele responsáveis, não nos podemos desvincular e atirar as culpas para mecanismos metafísicos espatafúrdios – uma Sociedade Aberta só o será a partir do momento em que raciocínios desses forem descartados, sendo assim a crítica aceite e os pilares de uma sociedade livre bem cimentados. Naturalmente que, devido à extensão do livro, não reproduzi aqui todas as críticas e observações que Popper faz em relação a cada um dos três filósofos.

É uma defesa apaixonada da democracia e do liberalismo, e certamente um essencial para quem procure bases filosóficas mais profundas sobre a natureza da democracia, seja-se de esquerda, de direita, social-democrata, liberal ou conservador. Claro que é uma leitura que não dispensa a leitura dos textos referidos (durante a leitura deste livro voltei a ler A República, revi o Manifesto Comunista e consultei O Capital, só não vi, infelizmente, nenhuma obra do Hegel). Recomendo.