sábado, 30 de outubro de 2010

15 Minutos

São 15 minutos de fama. É um momento no pedestal. É o culminar de um esforço, para apenas um efémero sentimento, um efémero aumento de ego. Mas são 15 minutos resultado de uma subida tão vertiginosa que, nas falhas ninguém reparou. Está tudo bem, a felicidade reina. Mas são apenas 15 minutos, é apenas um momento. Até à altura em que as fragilidades são tão evidentes que nada se aguenta em pé. E aí, tudo cairá, tudo de desmoronará. Mas, quem não faria um pequeno sacrifício para ter esses 15 minutos? O sacrifício é uma queda ainda maior, porque a subida foi vertiginosa, mas frágil. E a queda dói. Mas se há quem se venda (literal e metaforicamente), quem abdique de tudo o que é querido, quem esqueça tudo o que é, quem esqueça quem esteve sempre lá, por apenas 15 minutos, então também há quem não se importe da dor da queda. Mas picou o ponto, a marca está lá, por mais pequena que esteja. Ela está lá, nos 15 minutos. Mas, ao sétimo minuto, aliás, logo no primeiro, parece que os 15 minutos durarão para sempre. Mas quando chegar ao fatídico décimo quinto, cairá a verdade – que isto raramente dura mais de 15 minutos.

sábado, 23 de outubro de 2010

O Negro Presente da Faculdade de Direito de Lisboa II



Passado quase um mês do putsch do Anf. 8, em que Ivan, o Terrível, foi linchado em praça pública, uma série de acontecimentos se vão passando na mui nobre FDL, que a vão cobrindo de breu e tormentas.

Primeiro, o episódio mais cómico mas mais perturbador. O episódio dos dossiers. Sim, uma bela tarde de Outubro foi palco de uma manobra delirante de Ivan, o Terrível, Príncipe deposto do Reino da AAFDL. Visto a fugir com uns quantos dossiers na mão para os depositar em determinado carro, o ex-Príncipe encontrou uma multidão em fúria e exaltação. De notar que, enquanto Ivan, o Terrível, fugia, chamava pela mãe. Ou pelo menos é o que consta. Como não presenciei, não me pronunciarei. CONTUDO, Ivan o Terrível não estava delirante. Tudo uma manobra de diversão para que os dossiers fugissem noutro carro. Resultado: Ivan afunda-se mais do que já estava, mas alguns dossiers importantes nunca mais foram vistos. Provavelmente, estão algures reduzidos a cinza num aterro em Alcabideche.

Segundo, a RGA de há duas semanas. Confesso que foi bastante aborrecida. De notar a homenagem a Ribeiro dos Santos, que a Tertvlia ainda há pouco tempo condenou algumas pessoas (genericamente) por terem-na assinado. Pois, aparentemente só eles é que deviam ter assinado. Nós somos todos uma cambada de fascistas burgueses. Eis se não quando se levanta uma certa pessoa, pedindo a retirada da condição de sócio a Ivan, o Terrível. Aparentemente, a tentativa de desterro do ex-Príncipe não se concretizou.

E, após muitas reuniões “secretas”, as forças juntam-se. Têm de admitir que os locais escolhidos para reuniões secretas não são muito aconselháveis. Passo a listar:

Lugares da FDL para se ter uma reunião secreta, mas para que todos possamos vê-la:

- Escadas de metal do Bar Novo, por baixo ou por cima – clássico.

- Porta em frente à reprografia – grande influxo de alunos desesperados por um lugar ao balcão da reprografia

- Jardim interior, ao pé das janelinhas que vão dar para o corredor entre os Bares – ainda mais tráfego de alunos, especialmente entre aulas.

- Bar Velho, ali no lado direito de quem sai lá fora, mas naqueles bancos que são vistos do Bar Novo – assim, todo o pessoal do Bar Novo vê

- E muitos mais!

Acontece que, se calhar, essas conversas, sugestões, reuniões, conspirações, desabafos, não são muito secretas. Sim, concedo que são os mesmos locais perdilectos para fumar umas, mas quem as fuma não prima pela descrição também. Essas conversas são para ser vistas, para que a “arraia-miúda” se sossegue e pense que “está tudo bem! Os ex-líderes estão todos a falar para serem futuros líderes e arranjarem outros líderes para serem seus aprendizes! Aquele gajo da B está a falar com o gajo da X, uns gajos da C juntam-se para desabafar com uns da B, o Ivan é reconfortado por um ou dois amigos, a gaja da Tertvlia está a falar com o gajo da B. Está tudo em movimento!”

E eis que senão o resultado dessas reuniões semi-secretas: nasce o Movimento Refundar a Academia! Ai, que nome poético e cheio de epicness. Inspira qualquer um (aliás, qualquer menção a Academia, como um ente único alunos-faculdade-etc. dá sempre um toque épico.) A lista B e a X juntaram esforços para depois do Principado de Ivan, o Terrível, instituírem uma Junta de Salvação Académica. Naturalmente que, por um lado, fico feliz por haver uma lista de consenso. Aliás, já tinha escrito que, era preciso consenso para ultrapassar este momento difícil. Agora, será um consenso temporário, uma falsa segurança até Março. Faltam só 5 meses para que a chacina volte. Se repararem alguns dos actores frequentes destes teatros políticos e lísticos não vão actuar esta semana. Não senhor. Live to fight another day. E esse day será em Março, e aí será interessante.

Continuando com a actualidade – esse Movimento, ou Lista R, tem um conjunto de pessoas muito engraçado. Claramente que a maioria das pessoas são da Lista B. Fico descansado que eles continuem a bater-se (por) nós, ou a pensar em nós. E uns trocos pa lista X – um Vice-Presidente, uns quantos vogais, e voilá! Temos aqui o conjunto de pessoas que nos vão salvar. Adivinho que, como qualquer lista, as suas propostas vão estar cheias de conceitos indeterminados: “melhorar”, “contribuir”, “fazer o necessário”, “criar”, “acabar”, etc, e anseio por ver. É pena que não haja oposição – é o problema dos consensos. Assim, a lista R vai parecer corporizar a vontade da Academia séria (wow, o meu texto acabou de ficar 100x mais épico!). Há listas a gozar, Candidatos Vieira da FDL, e eu próprio faço parte de uma. Mas como disse o meu ilustre e desconhecido colega da Guelra da FDL: é mais uma forma de mostrar descontentamento através do humor. Não é a primeira nem a última vez que isso se faz. E como a Lista R é a única alternativa viável para a Academia séria, eles já têm a vitória garantida. Aliás, está tão garantida, que já vi vários dos seus membros a entrarem e a sairem da AAFDL. Como não há mais ninguém, para quê esperar até ao dia das eleições? Ocupa-se a AAFDL já! É no mínimo vergonhoso.

Vamos a ver como ficará essa situação transitória até Março. A Junta de Salvação Nacional que emergiu do putsch do Anf. 8 tomou as rédeas do pequeno Reino da AAFDL. O ex-Príncipe anda por aí, cabisbaixo, pelos cantos dos bares, os gloriosos membros da Junta andam de um lado para o outro atarefados, prometendo estabilidade até Março. Em Março, hell will break loose. E aí veremos mais episódios dos seres mesquinhos, traidores, backstabbers, interesseiros e sedentos de 15 minutos de fama que são uma parte considerável dos membros das nossas Listas e Direcções. Há gente séria, eu sei. Há pessoas que realmente querem melhorar o estado das coisas. Mas há quem queira só protagonismo, poder de decisão, tacho, ou pelo menos saber quando as coisas acontecem. E em Março, saberemos quem são.

Até lá, esperemos que eu não tenha mais motivos para escrever um post intitulado “o Negro Presente da Faculdade de Direito de Lisboa III”

domingo, 3 de outubro de 2010

A Nova Moda Monárquica

Adoram touradas, eles até costumam ser forcados ou cavaleiros. Costumam alguma ascendência nas famílias aristocráticas alentejanas/ribatejanas, ou fingem que têm. Eles costumam usar patilhas e alguma indumentária rural, para não serem corrompidos pela instituição comunista que é a cidade. Elas são muito católicas, mais do que eles. Se eles não usam patilhas, usam uma configuração de pelo facial invulgar e reminiscente de tempos antigos. Ambos costumam ter um apelido qualquer escrito na forma antiga, porque, como bons opositores da República, não aceitam a Reforma Ortográfica de 1911. Sei que estou a fazer uma generalização, mas faço-a por mera piada. E sim, estou a falar agora da nova moda entre uma certa camada de jovens portugueses: ser monárquico!

Ter um Rei é tão giro. Assim Portugal pode aparecer mais na Hola! e a indústria cor-de-rosa nacional crescerá exponencialmente. Agora, o problema é que os monárquicos não se decidem pelo Rei que querem. Sabem que querem um Rei em abstracto. Mas se é o D. Duarte ou o Duque de Loulé, ninguém sabe. É uma incógnita. O certo é que todos estes monárquicos têm este saudosismo engraçado. Há quem tenha saudosismo do Salazar, estes têm de uma época longínqua em que (acham eles) Portugal era uma superpotência e em que, acima de tudo, havia ordem. Porque é preciso conter o demo vermelho (PCP, que confesso, partilho o meu ódio com os monárquicos) como também os novos ricos (os capitalistas), que ameaçam o Portugal católico e rural, com o seus hábitos citadinos e decadentes. E depois vêm os argumentos típicos, sem qualquer fundamento, estilo: “O Rei de Espanha gasta menos dinheiro que o Presidente da República português”. Não creio. Muito pouco provável, não só porque um Rei e a sua extensa família deve custar bem mais dinheiro ao Estado que um Presidente e a sua mulher. Se esse facto é verídico, deve ser pela inabilidade lusa de gerir alguma coisa com eficiência. E depois uma frase comum: “um Rei era tão giro!”. Ah, ser jovem e ingénuo!

Mas deixarei agora a brincadeira e passarei para a parte do post para os monárquicos sérios e reflectidos (como eu sei que há muitos) lerem. O resto era para os vossos colegas que dizem “um Rei era tãaao giro”. Peço desculpa pela generalização e pelo escárnio expresso acima, é que não pude resistir. Se quiserem rir mais, consultem o grupo do facebook: “No dia 5 de Outubro vou pôr esta bandeira (a monárquica) no perfil!”, vale a pena.

Terça-feira fará 100 anos que a Revolução do 5 de Outubro derrubou a monarquia e instaurou a República, uma data que, para mim, é digna de se festejar. Mas, naturalmente, que conheço as críticas monárquicas a essa Revolução: que foi um levantamento só em Lisboa e no Porto, protagonizado por uma pequena elite intelectual citadina e burguesa insatisfeita com o estado das coisas. Faço essas críticas as minhas. Bem sei que, no resto do país, a notícia passou meio despercebida. Mas sejamos sinceros, raramente uma revolução/levantamento é a expressão do sentimento geral do povo. Revoluções verdadeiras, em que há uma consciência geral de que está tudo lastimável e em que um grande número de pessoas se revolta, são raras. Especialmente em Portugal. A guerra civil entre Liberais e Absolutistas foi um confronto de ideias entre a velha elite aristocrática e tradicionalista e uma elite emergente burguesa e citadina; A Revolução de 5 de Outubro foi feita principalmente por uma elite intelectual progressista e nacionalista; o 28 de Maio foi feito pelo exército apenas; o 25 de Abril, a mesma história. Bottomline: especialmente em Portugal, quando um grupo ganha força suficiente para se efectivamente opor ao Estado, o povo vai atrás do mais forte e finge que sempre pensou como eles. É curioso como no dia 24 de Abril de 1974 Portugal era um país profundamente conservador e 24 horas depois, era o povo mais revolucionário da Europa. Isto tudo para demonstrar como, na maior parte das revoluções, elas são feitas por uma elite qualquer e a população segue o vencedor. Efeitos da propaganda de cada regime, talvez, mas é essa a verdade. Mas estou-me a desviar.

É certo que a 1ª República foi politicamente caótica, e a conjuntura internacional também não ajudou. Estava desde o início condenada ao fracasso (se bem que essa ideia da 1ª República como um período quase anárquico é bem capaz de ser exagero dos livros de História do Estado Novo). Salazar certamente não queria ter um Rei a governar com ele. E não cedeu a pressões de grupos monárquicos. E pronto, acabou o Estado Novo e começaram 36 anos de uma democracia que funciona relativamente bem, nada a ver com o caos da 1ª República. Claro que muitos monárquicos gostavam que tivesse acontecido o que aconteceu em Espanha – o Rei se tivesse tornado um herói ao presidir ao processo de transição para uma Monarquia Constitucional. Mas devido às circunstâncias, ninguém quis isso. E certamente que já nessa altura, a monarquia era vista como uma relíquia do passado. E muito bem visto. Bem sei que a esmagadora maioria dos monárquicos quer uma monarquia constitucional, nos moldes espanhóis, suecos, britânicos, etc. Esses países têm todos democracias funcionais e prósperas (aliás, a Inglaterra, para mim, é a democracia mais antiga em existência). Mas esses países têm todos monarquias por necessidade (Espanha precisou do Juan Carlos para transitar para a democracia) ou por continuidade – as monarquias europeias restantes têm sorte porque tiveram a habilidade de gerirem bem crises políticas e de se apresentarem como factores de unidade nacional em tempos de crise (como a 2ª Guerra Mundial). Portugal podia ser um desses países, mas não é. Então porquê esse desejo de uma franja da população de ressuscitar a monarquia?

A monarquia restaurada depois de 36 anos de uma democracia funcional, e usando o argumento de que poria Portugal a funcionar melhor, não faz sentido. Se o Rei substituísse o Presidente, continuaria tudo na mesma, assumindo que tivesse os mesmos poderes. Quem faz merda são os Governos, por isso o argumento de que melhoraria Portugal não é viável. Há os velhos argumentos de que o Rei seria uma pessoa imparcial que arbitraria as vontades dos partidos com a vontade do povo – o Rei é uma pessoa, por isso, há de ter ideias políticas, e quererá, discretamente, como um Presidente da República, puxar à brasa a sua sardinha. É que, independentemente da “educação especial” que pudesse receber, seria sempre uma pessoa muito parecida com o Presidente da República. Há que reparar que os 4 PR’s eleitos que tivemos são todos políticos sérios, com uma auctoritas tremenda e que nunca se viram envolvidos em nenhum escândalo ou falcatrua. Eu também sei que a maior parte dos monárquicos são democratas, mas porquê que o espírito democrático deles não se expande para o Chefe de Estado. Porque esse arcaísmo, esse vestígio do passado que é a Monarquia? O quê que há de democrático em ter um Chefe de Estado que só o é porque nasceu numa determinada família. Os Chefes de Estado, em democracia, chegam aos lugares por mérito e por demonstração de capacidades. E atenção que Primeiro-Ministro pode ser qualquer um, PR não. É essa a incoerência dos monárquicos – afirmarem-se como democratas mas não o serem para o cargo mais alto do País. Para além de que, a esmagadora maioria da população não desejaria o Rei. Apenas uma pequena franja que, de vez em quando, tem visibilidade. Eu creio, como toda a devida consideração, que é mais um sentimento de saudosismo do que pensamento políticos sério e racional, apesar de ter os seus elementos sérios e racionais. Se calhar o sentimento que um ex-aristocrata tem, a desejar o tempo em que uma elite não precisava de trabalhar para se manter. Uma relíquia do passado no fundo, que eu não percebo.

Eu não sou fervorosamente Republicano – quero dizer que, no dia 5 de Outubro não vou para a rua cheio de bandeiras e vestido a vermelho e verde. Mas isso sou eu, que não sou entusiasta por ideologias previamente concebidas. Mas sou convictamente Republicano. O modelo Republicano, conjugado com a democracia e com o liberalismo político e económico, dá um bom modelo, o meu predilecto. Apesar de todas as complicações, a 3ª República tem funcionado bem, comparada com a repressão do Estado Novo, o caos da 1ª República, a fachada da Monarquia Constitucional e a decadência da Monarquia Absoluta. Não seria um Rei em vez de um Presidente que iria mudar o estado de coisas. E por isso, dia 5 de Outubro não vou para todos os eventos da celebração do centenário da República, mas pensarei para mim:

Viva a República!