terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Negro Presente da Faculdade de Direito de Lisboa

Este post só fará sentido para os meus colegas da Faculdade de Direito de Lisboa, e para eles escrevo.

É com pena que eu olho para o estado da “mui nobre” FDL, uma das faculdades mais prestigiadas do país onde se formaram líderes, juristas de renome e muitos bons advogados, magistrados, etc. Não falo só a nível académico, com a instabilidade e a insegurança causadas pelas constantes mudanças em modelos de avaliação e outros regulamentos internos e com a má aplicação do Processo de Bolonha, inadequado ao nosso curso, mas também a outros níveis. A níveis de decadência moral, hipocrisia – todos emanantes da crescente politização do associativismo na nossa faculdade – atenção: não pensem que isto é uma espécie de tentativa de imitação do Berro, pois não simpatizo com a Tertúlia também, algo de que falarei posteriormente.

Começando pela politização do associativismo. Todos já ouvimos as histórias e alegações de conspirações das juventudes partidárias com as listas. Não tenho fontes para aferir a sua validade ou não, e por isso não falarei a fundo disso. Mas todos sabemos que há alguma influência partidária. Não que a politização do mundo académico seja algo negativo, antes pelo contrário. É positivo sermos estudantes orientados e com conhecimentos para poder desenvolver, defender e discutir os nossos ideais políticos. Mas o que acontece na FDL é um reflexo do que acontece no país – a emergência da política pelo poder também faz emergir o associativismo pelo poder. Posso afirmar que a nossa faculdade sempre foi um campo de treino para futuros políticos, é só ver os nomes que já cá passaram: Mário Soares, Álvaro Cunhal, Jorge Sampaio, Durão Barroso, entre muitos outros licenciados da FDL que vingaram na política. Mas se são quem fala e discute nas RGA’s que vão ser os futuros políticos do país, então é melhor pormo-nos a pau. A Lista B e a Direcção degolam-se em batalhas sangrentas nas RGA’s, resultado da “democrática” separação de poderes (C na Direcção, B na Mesa), enquanto que uma moribunda lista X (posso estar enganado) não tem força suficiente para se impor às outras listas. Tudo isto torna as RGA’s algo muito divertido, digno de, como alguém o fez, trazer pipocas para assistir à batalha campal-verbal que se desenrola. Parece que o objectivo da maior parte das pessoas envolvidas no associativismo não é o progresso da Faculdade, nem a defesa dos direitos dos alunos, mas sim o simples facto de estar no poder (se é que se pode chamar poder). Não duvido que haja pessoas que estão lá bem-intencionadas, o que já tiveram, mas não constituirão certamente a maioria. Também há quem queira estar para poder organizar as festas, o que é um bocado burrice porque não pode apanhar uma narssa nas festas que organiza. Lembro-me da contagem dos votos da passada eleição, em que um voto nulo afirmava: “Lista B – Ditadura Militar, Lista C – Oligarquia, Lista X – Ditadura do Proletariado e Marretas – Anarquia.”, mas agora parece que a Lista C está a ir na direcção “Estado Soviético”, devido a barbaridades como requerimentos para entrar na associação e cobrança de imposto sobre cartazes. Pergunto-me: será que o Ivan, ou qualquer membro da direcção ou das listas se preocupa com o estatuto do trabalhador-estudante ou com os exames “à la carte” ou com outros assuntos que interessam aos alunos? A esmagadora maioria parece-me que não, mas há de haver excepções. Seja como for, cada vez mais, as pessoas estão lá pelo poder (que deve ser imenso) e é um reflexo da situação da política nacional.

Sim, especialmente na era pós-25 de Abril, a FDL foi o palco de conflitos políticos que reflectiam o conflito político no país. Mas esse era o tempo em que o chamamento do poder não era tão aliciante. A democracia era jovem e são precisos anos para emergir uma geração que está na política para simplesmente ter o poder.

Depois ainda temos a “Tertvlia Libertas”, organização que não é organização, loja maçónica que não é loja maçónica, entre outros (se não me tivesse esquecido do Berro na faculdade, continuaria), e que pinta um cenário da Faculdade mais negro que os seus trapos. Sim, politicamente a Faculdade está o degredo, e nunca foi um paraíso de simpatia aluno-professor, e nisso estou de acordo com eles, mas também não é o suposto. Mas calma. A Tertvlia, que num pedaço de propaganda e cacique por papel chamado “O Atre-Lado da Praxe”, afirma-se como uma instituição (não se afirma nada! Ainda não percebi afinal como é que eles se definem!) na verdade adora os alunos, mas “só aqueles que merecem!”, entre outras preciosidades a exaltar o seu papel. Afinal a cerimónia das velas também não é cacique, pois não? Se calhar é psicologia inversa, em que se cria aversão para criar curiosidade, sei lá. Já para não falar na crítica feita ao “prolongamento da Praxe” feito por um pequeno grupo de veteranos, que, segundo a “Tertvlia” não quer integrar os alunos, quer só fazer cacique, naturalmente. Independentemente da existência ou não de cacique (que a “Tertvlia” também faz, mas subtilmente, claro), esse grupo de veteranos, e apesar de muitos serem da lista X, também há quem não seja, são apenas um grupo de amigos que tem prazer em integrar os caloiros, e tentarem por o cunho de “cacique” nisso é uma falta de respeito ao trabalho deles. Mas os homens (mais mulheres na verdade!) das capas negras são bonzinhos e têm uma “legitimidade revolucionária” com 20 anos que lhes dá demasiada influência. Espero pelo dia em que a legitimidade democrática (que não é a AAFDL, sublinho) leve a melhor sobre esta não-instituição também decadente.

E pronto, depois destas conspirações, das trocas de lista, das traições, do backstabbing e da politiquice, as pessoas esquecem-se da razão pela qual estão na FDL: estudar Direito. Parecendo que não, isso devia ser a nossa principal ocupação, estudar Direito para um dia sermos advogados, juristas, magistrados, diplomatas, notários, e seja lá o que quisermos. Mas as pessoas esquecem-se disso. Já para não falar de tudo de bom inerente à vida académica – as festas, o convívio, as bebedeiras e as ressacas. Tudo decai, as listas, as RGA’s, a “Tertvlia”. Mas, apesar de todos os contratempos, o Direito continua a ensinar-se, as festas continuam a realizar-se e a imperial da happy hour do Bar Novo ainda não foi taxada pelo Ivan. E o corpo estudantil e a AAFDL devia perder menos tempo em debates e conspirações, e atingir um consenso para se poder melhor defender os interesses dos alunos. Connosco desunidos é que mais abusos se poderão cometer. É hora de cagarmos para o que é menos relevante, e deixarmos os jogos políticos para os políticos. Se calhar olharmos para os nossos colegas de outras Faculdades e ver que, podendo também interessar-se na política, dentro da faculdade ora estudam, ora bebem, ora fazem ambos.

domingo, 19 de setembro de 2010

A Individualidade e Apologia ao Individualismo

individualidade

s. f.

1. O todo do indivíduo ou do ser.

2. Conjunto das qualidades individuais.

3. Autoridade, alta patente, personalidade, pessoa ilustre.


O quê que hoje em dia significa individualidade? Com cerca de 3000 de civilização ocidental, o que significa ser um indivíduo, um ser singular, desligado e ao mesmo tempo ligado à colectividade? Para nós, ocidentais, a individualidade e o individualismo foram sempre uma das nossas características. Para outras culturas, é o nosso maior defeito e a razão de todos os males, associando-o ao egoísmo e distanciando-o do altruísmo. Faço então, agora, uma apologia ao individualismo.


O que seria de nós, pessoas que somos, se fôssemos apenas parte de um todo. Muitos pensadores e filósofos gostam de constatar esse facto, que, apenas somos parte da sociedade, de um planeta, de um universo. Mas não fosse a capacidade de abstracção uma das capacidades inerentes ao ser humano, se calhar isso seria verdade. A abstracção permite-nos ver para além do físico, o que alguns chamam, precisamente, o metafísico. E ao ver o metafísico, nós podemos quebrar as grilhetas que nos prendem ao chão, e seguir o nosso próprio caminho. Se não conhecêssemos a metafísica e a abstracção, o que eu estou a dizer não faria sentido.


E o que significa quebrar essas grilhetas? Há que deitar um pingo de realismo e entender que temos limites naturais à liberdade, e isso é um dado adquirido. E temos que assumir que a sociedade exerce uma grande e inegável influência nas nossas atitudes. Mas dentro do que nos é oferecido e transmitido pelas gerações anteriores e presentes, temos de saber sair da caixa. Ter individualidade é, portanto, sabermos adoptar os nossos próprios comportamentos, não nos deixar liderar cegamente por alguém, é questionar e perceber o que possamos. É seguirmos o nosso próprio caminho sem ter que dar justificações a ninguém. É termos as nossas manias, as nossas fobias, as nossas taras, as nossas características estranhas e ter orgulho em as ter, por mais tolas que possam parecer aos olhos do mundo. Não digo nada de novo aqui.


Mas saindo do domínio da metafísica e passando para o domínio da realidade, é impossível sermos totalmente individuais e diferentes. A maior parte de nós veste fatos para o trabalho, e maior parte de nós tem como objectivo chegar a esse mesmo trabalho, depois de uma educação primária, básica, secundária e superior, por exemplo. Há tantos denominadores comuns que seria impossível expô-los a todos aqui. Mas ser diferente, ter individualidade não significa ignorar esses denominadores comuns. Implica, como diz Stuart Mill, conseguir pairar acima do comum, pairar acima das massas. E isto não é nenhuma aspiração elitista, óbvio que não. Quando falo das massas falo de todos, incluindo as elites, que adoptam a chamada “herd mentality”. Mas há sempre quem consiga combater esse instinto tão forte. É conseguir ser um pouco mais que a média, ser algo diferente, ser algo melhor, dependendo da perspectiva. Mas não com o objectivo de ter qualquer tipo de domínio sobre essas “massas”, porque normalmente são membros dessas “massas” que são os líderes. Os que se individualmente se destacam são ostracizados e mais tarde valorizados, e alguns conseguem chegar ao poder, e se não se renderem à intoxicação do poder, serão aquilo a que se chama um “grande homem”. Mas, como dizia Acton, “os grandes homens são quase sempre maus homens”, é preciso saber escapar às tentações do domínio e ser um grande e bom homem, coisa rara, muito rara. Mas ter individualidade não implica ser importante, implica ser positivamente diferente.


E muito menos eu identifico este individualismo com o egoísmo. O verdadeiro individualista não é egoísta, o verdadeiro individualista é bem capaz de ser altruísta. Pode ser destacado acima da multidão, e pode dirigir a sua vida pelos seus interesses, mas sabendo isso, sabe quando ajudar o próximo. E ajudar o próximo não implica dizer lhe para onde ir. Perícles, ao descrever o individualismo altruísta dos atenienses, afirmava que os atenienses ajudam o vizinho se ele precisar e indicam lhe os caminhos possíveis, mas nunca o paternalizam. Há que não identificar o individualismo com o egoísmo.


Resumindo, uma das características do individualismo é o direito de se ter manias, de se ser estranho, de contrariar a mentalidade da multidão, de se ser irracional sem dar satisfações. E é a isso que eu aspiro. Não sei se algum dia conseguirei ou se conheço ou conhecerei alguém que o conseguirá. Mas o caminho vai-se fazendo caminhando, e eu espero progressivamente que ele seja trilhado. É difícil resistir à pressão e quebrar as correntes da sociedade, mas se o individualismo é a fórmula de um relativo sucesso da nossa civilização, ela avança, não só com as massas, mas com a acção de indivíduos. Porque é denegrir a pessoa humana referi-la num colectivo. Por isso é que eu prefiro usar “pessoas” a “povo”. Ao usarmos povo, parece que falamos de um órgão homogéneo que age em uníssono. E sei que muitos gostariam que assim fosse. Mas o povo é composto por pessoas, e as pessoas, felizmente, tem interesses, gostos, medos e inquietudes diferentes. Se fosse o contrário, o mundo seria um lugar horrível. A história não avança pela luta de classes ou a luta de povos. Avança pelo confronto entre as pessoas, e seja lá quem elas conseguirem arrastar com elas. E é por isso que somos indivíduos, não números, e conseguimos, dentro de um Framework cultural, social, politico e legal, ser diferentes e seguir o nosso caminho. Todo este elogio ao individualismo pode parecer utópico e sonhador, mas é a aspiração a seguir.


O texto acima não constitui nenhuma pretensão filosófica, foi apenas uma reflexão minha que decidi partilhar com o mundo. Quem a ache ridícula, ou incoerente ou estúpida, ainda bem. Acreditando em tudo o que escrevi, reservo-me ao direito de fazer coisas sem sentido, sem dar justificação a ninguém.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Livros I: As Benevolentes e O Triunfo dos Porcos


Às vezes há livros que nos surpreendem, e outras vezes livros que correspondem exactamente às nossas expectativas. É esse o caso das minhas duas leituras de final de Verão: As Benevolentes, do Francês Jonathan Littell, e o Triunfo dos Porcos, pelo conhecido George Orwell.



As Benevolentes é um volume maciço, e única obra do autor francês nascido nos Estados Unidos Jonathan Littell. As suas 800 páginas estão repletas de horror que nos leva a uma realidade fria e terrível, mas que nunca se deverá esquecer – a realidade da Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial, que o III Reich e a URSS tornaram o teatro de guerra mais sangrento da História. Mas o que mais nos faz reflectir é todo o niilismo que envolve a obra, toda a apatia que sente o personagem principal. Este livro conta as memórias do fictício coronel das SS Maximilien Aue, que vai acompanhando o avanço da máquina de guerra da Wehrmacht pela Ucrânia e pela Rússia, assistindo às execuções em massa de milhares de judeus. Aue, no início da obra, exprime o que muitos soldados alemães sentiam depois da guerra, mas nunca se atreveram a expressar: o não arrependimento. Aue afirma que, para ser verdadeiro para com ele mesmo, não podia fingir o arrependimento pois ele só estava a cumprir ordens e porque, quem não esteve na mesma situação que ele e os seus camaradas de armas, não pode compreender a sua complexidade. Contudo, Aue despreza os seus colegas que tiram prazer das execuções em massa e de homicídio aleatório, adoptando uma atitude apática. Não contarei mais pormenores, mas posso assegurar que é um livro muito bem conseguido, muito bem escrito e extremamente rigoroso, usando personagens reais a interagir com fictícias, e a retratar muito bem como funcionava a máquina de guerra nazi.

Este livro leva-nos a analisar toda a cultura militar alemã de obediência e rigor, que foi essencial para o sucesso inicial de Hitler e dos seus lacaios. A defesa usada pelos militares (que não eram nazis) no julgamento de Nuremberga, que ficou precisamente conhecida por “defesa de Nuremberga” foi Befehl ist befehl – uma ordem é uma ordem – o que nos deve lembrar que nem todos os soldados e oficiais alemães na 2ª Guerra Mundial eram Nazis, pois estavam apenas a cumprir ordens do Estado, que era controlado pelo Partido Nazi. Há quem diga que os Generais alemães executados nesses julgamentos, entre os quais Jodl e Keitel, não o deviam ter sido, e que as execuções foi apenas uma manifestação da chamada “justiça do vencedor”, imposta pelos Aliados. Como se costuma dizer – a história é escrita pelos vencedores – e é positivo que haja cada vez mais livros ou filmes sobre este período que representem o outro lado, o lado do inimigo vencido, que não era necessariamente um monstro sanguinário, que estava naquela guerra como qualquer americano, russo ou inglês, e que sofre os mesmos dramas e horrores. Aliás, sofre mais, com as coisas terríveis que é obrigado a fazer ou a ver. Um grande livro, que fortemente recomendo.



Passo agora para o Triunfo dos Porcos do imortal George Orwell. Contrastando com a sua outra obra-prima 1984, o Triunfo dos Porcos é pequeno e escrito numa linguagem simples, num estilo de fábula, que nos conta a história da revolução traída, tema também presente em 1984, num assombroso paralelo com a Revolução Russa de 1917.

O livro fala-nos de um levantamento de animais numa quinta em Inglaterra, fartos de trabalharem para o seu dono humano e não ficarem com os frutos do seu trabalho, seguindo a ideologia do “animalismo”, exposta pelo Old Major, um velho porco que morre um pouco antes (provavelmente um equivalente a um Marx ou a um Lenine). Rapidamente, dois porcos assumem a dianteira desta revolução – Napoleão e Bola de Neve (equivalentes, respectivamente a Estaline e a Trotsky), que conseguem, com os outros bichos, expulsar o seu dono. Assumindo o controlo da quinta, os animais começam a fazer as coisas à sua maneira, e estabelecem 10 mandamentos, entre os quais se destacam “Todos os animais são iguais” e “tudo o que ande sobre quatro patas ou voe é amigo, quem ande sobre duas patas é inimigo”.
Mas rapidamente a utopia se desmorona, com Napoleão e Bola de Neve em confronto, confronto esse que Napoleão ganha, expulsando o seu inimigo da quinta e extinguindo os poucos órgãos de decisão democrática que ainda havia. Ficamos a saber histórias individuais de cada um destes animais, e os eventos que vão endurecendo o controlo de Napoleão sobre a quinta. Para não contar mais da história, uma das últimas frases, dita pelo velho burro da quinta, expõe a mensagem da obra: “A partir de uma certa altura, já não dava para distinguir os porcos dos humanos”.

O livro é uma óbvia sátira à Revolução Russa e à União Soviética, nomeadamente através do tema da ideologia perfeita e utópica que se implementa através de uma revolta, mas que depois é posta em prática e distorcida pelos seus líderes, que se tornam, mais tarde ou mais cedo, se tornam iguais aos opressores antigos. É um livro simples, pequeno e que faz perceber a toda a gente estes temas. Tal como as fábulas tradicionais de LaFontaine e Ésopo, faz-nos perceber, através dos animais, dos nossos defeitos e das nossas fraquezas. Outra leitura altamente recomendada.